Mesmo com todas as influências sofridas e com a busca inicial de uma identidade regional catalã, longe de todos os estereótipos e de regras tidas como inquestionáveis, Gaudí desenvolve ao longo de sua carreira um estilo inigualável e característico de si próprio. Através da análise de suas obras percebe-se nos detalhes cada uma de suas referências e, no todo, uma arquitetura única do artista.
Pode-se dizer que ele brinca com a liberdade criando formas como uma escultura e utilizando-se desde os novos materiais, como o ferro, até o artesanato tradicional com a cerâmica e os mosaicos. É o conceito da arte total, sendo a obra uma unidade de todas as artes. Percebe-se nesse momento a influência de Ruskin e Wagner, os quais possuíam um ditame parecido de que “o arquiteto que não fosse escultor ou pintor não era ‘senão um moldureiro em grande escala’” (Frampton, Kenneth. p. 71). Ele realiza deste modo uma arquitetura plenamente visual, com o auxílio fundamental da cor, sendo os demais materiais apenas suporte. “A verdadeira estrutura, é a estrutura da imagem.” (ARGAN, Giulio C. 1984)
A partir de sua originalidade de criação, Gaudí percebe que a linguagem arquitetônica moderna tem possiblidades poéticas bem maiores quando não está restrita ao âmbito do “útil” e das ideologias sociais. A criação extravasa esse sentido e, neste momento, ele encontra a problemática da Art Nouveau que abrange o significado de analisável e útil, menosprezando então as vantagens funcionais.
“Como a técnica está a serviço da fantasia e a fantasia não tem limites, os problemas técnicos que se apresentam a Gaudí são mais difíceis do que os inerentes a uma técnica a serviço da razão: Gaudí não só está ao corrente de todas as novidades técnicas de sua época, como também pretende superá-las, justamente demonstrando que a técnica é de importância apenas relativa.” (ARGAN, Giulio C. 1984)

Figura 3: Escadaria do Parque Güell
De acordo com o teórico Giulio C. Argan, o Parque Güell (1900 – 1914) destaca-se como um produto do conceito da arte total, de dependências de todas elas como uma unidade. É a integração recíproca entre as formas artísticas e as formas naturais. Com a fachada em pedra moldada de forma rudimentar, Gaudí mistura elementos clássicos, mediterrâneos e seu estilo mudéjar. A monumental escada exterior remete a imagem dos grandes castelos do passado, bem como o réptil representado que faz uma alusão aos gigantescos dragões.

Figura 4: Detalhe do réptil representado na escadaria
Há também uma colunata em estilo dórico compondo várias filas, mas sem perder a identidade do artista. Gaudí brinca com essa herança da Antiguidade nas colunas exteriores, sendo ligeiramente inclinadas e alargadas mais a baixo, além de uma composição mais marcada.

Figura 5: Colunas inclinadas em estilo dórico do Parque Güell
O conhecido banco serpenteante contínuo que segue uma forma natural e orgânica, materializado em pedra, porém que não perde o estilo magnífico sendo composto por um mosaico multicolor a partir de pedaços de azulejo e de vidro, bem como todo o parque.

Figura 6: Detalhe dos bancos serpenteados
Além do resgate de tradições clássicas, a cor ocre da pedra ergue-se como um templo grego. A partir dessas análises, percebem-se com nitidez diversas influências confluindo para um estilo próprio arquitetônico, distinto de qualquer outra produção anterior ou do mesmo período. Nikolaus Pevsner chega aproximar essa produção aos ideais buscados por Picasso, estando mais alinhada a esse conceito do que aos militantes da Art Nouveau, levando em consideração as cores vibrantes, as formas retorcidas e a ornamentação aleatória.
“No Parque Güell, (...) aproximou-se de tal forma da natureza que as construções pareciam ser uma segunda natureza, uma recriação artística de formas naturais e de princípios arquitetônicos.” (ZERBST, Rainer. p. 178)

Figura 7: Fachada da Casa Vicens
Como outra obra de destaque para análise pode-se citar a Casa Vicens (1883 - 1888), que traz uma forte influência mourisca em sua composição. Essa casa “atesta a influência de Viollet-le-Duc (...) em que os elementos construtivos do estilo nacional eram dados como decorrentes dos princípios do Racionalismo Estrutural” (FRAMPTON, Kenneth. p. 70). Sua simplicidade construtiva conta com a utilização de pedra em tons ocre, tijolos vermelhos e azulejos coloridos nas fachadas, proporcionando um jogo ornamental com a união da tradição burguesa espanhol e a tradição árabe secular.

Figura 8: Fachada da Casa Vicens mostrando a combinação dos diversos materiais: pedra, azulejo, tijolos avermelhados e ferro
Há um claro resgate da arte muçulmana nesta arquitetura, através dos ornamentos geométricos e composições de azulejos que trazem cores vivas e elementos regionais. Entretanto, Gaudí não imita a arquitetura mourisca, mas utiliza-se dela como inspiração para criar seus próprios ornamentos. As pequenas torres no telhado lembram também o estilo mourisco. Tanto no interior da casa como no portal de entrada percebe-se também a influência da Art Nouveau, com a ornamentação com motivos florais e o ferro batido como folhas de palmeira. Desta forma, há a utilização de um dos novos materiais da época: o ferro, sendo entortado e trabalho em formas naturais e curvas.

Figura 9: Detalhe do portão de ferro retorcido em formato de folhas de palmeira
"A influência mourisca é bem patente. Pequenas torres que fazem lembrar os minaretes das mesquitas foram aplicadas no telhado. Os motivos finos, típicos dos azulejos, dão a impressão dos motivos de filigrana das construções mouriscas. No interior do edifício, repete-se a impressão ornamental das paredes cobertas de azulejos, sem imitar a arquitetura mourisca. Gaudí apenas se deixou inspirar e criou seus próprios ornamentos.” (ZERBST, Rainer. p. 39)

Figura 10: Fachada da Casa Vicens, com destaque para a torre no telhado em estilo mourisco
“A Casa Vicens é uma colagem de estilos bem diferentes. Se quisermos definir o que é típico nesta casa, podemos dizer que se trata de uma ruptura de estilo.” (ZERBST, Rainer. p. 39).
Em Barcelona, a Casa Milà (1906 – 1910), também conhecida como “La Pedrera”, ergue-se como a face ondulante de um penhasco, como uma gigantesca escultura.

Figura 11: Fachada da Casa Milà, também conhecida como "La Pedrera"
“A estrutura de aço do edifício é suprimida por um revestimento maciço de pedra, com blocos laboriosamente trabalhados de modo a sugerir a face de uma rocha erodida pelo tempo. Assim como no Parque Güell, a articulação da estrutura foi sacrificada à evocação de uma força primitiva, não sendo explicitamente expressos nem a construção nem seu modo de montagem.” (FRAMPTON, Kenneth. p. 72)

Figura 12: Vista superior do pátio interno da Casa Milà em formato arredondado
No interior da edificação, há a substituição dos antigos pátios retangulares por outros redondo que se alargam verticalmente, resultando em uma excelente iluminação natural, uma inovação que passa a ser adotada posteriormente na arquitetura de Barcelona. Nesta obra percebe-se também o menosprezo de Gaudí por vantagens funcionais que tanto desserviu à Art Nouveau, sendo aplicado esse conceito à planta da Casa Milà, como, por exemplo, com paredes curvas às quais não se pode encostar um móvel.

Figura 13: Planta da Casa Milà
De acordo com o teórico Pevsner, em Origens da arquitetura moderna e do design, levando em consideração os aspectos apresentados, torna-se fácil enquadrar este artista no movimento Arte Nova da época. Porém, é necessário lembrar que suas obras não seguem fielmente aos princípios defendidos, sendo consideradas originalidades dentro das molduras da época. Ele pode ser considerado um artista em sintonia com o seu tempo que, em muitos momentos, se antecipa a seus contemporâneos em soluções arquitetônicas, porém que não deixa de lado as raízes de seu povo. Reflete o Mediterrâneo como uma confluência de culturas diversas e Barcelona como centro de referência. Sua obra é característica da região da Catalunha, porém inigualável a de qualquer outro contemporâneo que tenha buscado essa identidade regional.
“Ainda nesse individualismo extremado, Gaudí foi parte da Art Nouveau, pois este movimento era acima de tudo, e antes de mais nada, a explosão do individualismo” (PEVSNER, Nikolaus. p. 113)
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