Para além do movimento separatista catalão, Gaudí sofre neste momento influências de diversos teóricos e correntes da época. De acordo com Kenneth Frampton, em História Crítica da Arquitetura Moderna (2000), sua obra parece ter-se originado de dois impulsos antitéticos: “o desejo de reviver a arquitetura indígena e a compulsão a criar formas totalmente novas de expressão”. Cita-se dentre as personalidades que mais influenciaram o seu trabalho Viollet-le-Duc, John Ruskin e Ricardo Wagner.
É no final do século XIX e início do século XX que também se insere no contexto europeu o movimento Art Noveau, nascido na Bélgica e difundido posteriormente para a França e demais países. Esse movimento é fruto de uma nova burguesia industrial e das novas tecnologias, buscando romper com os princípios da arquitetura clássica e propondo o uso de novas formas e materiais. É a defesa de uma arte em sintonia com o seu tempo. Deste modo, em vários países da Europa os teóricos e artistas buscam a formação de uma identidade própria, formas que criassem uma identidade nacional e que deixassem de ser simples repetições dos modelos antigos. A situação não foi diferente na Catalunha, principalmente em um período em que se vivia um revival cultural, buscando a afirmação da soberania catalã na região. Gaudí recebe então influência de vários estudos e concepções de pensadores da época, os quais, juntamente com o movimento catalão, o ajudaram na sua formação cultural, que inicialmente relacionava-se com a busca de uma arte regional característica catalã e que mais tarde tornou-se algo extremamente particular e próprio.
“Ao longo desse período podemos reconhecer uma forte luta interior para superar-se e encontrar um estilo próprio e pessoal. Tanto o ensinamento de Viollet-le-Duc, como esforço de livre interpretação dos distintos estilos, quanto certa atitude romântica no estudo na arquitetura gótica e, em grande parte, de sua lógica estrutural, bem como o estudo da natureza como fonte inesgotável de inspiração, são as fontes que dotarão Gaudí, no momento histórico da passagem do século, da liberdade suficiente para ir além dos estilos históricos e entender a modernidade que é preciso encontrar nessa nova atitude.” (GÜELL, Xavier. 1994)
Na busca de uma identidade regional, Gaudí desde cedo buscou conhecimento na história de sua região, apresentando ao longo de sua carreira um resgate das tradições locais. Pode-se perceber a exemplo disso características da cultura dos mouros em suas criações, povo que dominou, principalmente, o sul da Espanha entre os anos de 711 d.C. e 1492, deixando profundas marcas na arquitetura e nas artes do país. Desta forma, “o artista recria em suas obras a essência de seu estilo que, embora gótico em seu princípio estrutural, era mediterrânico, para não dizer islâmico, em boa parte de sua inspiração” (FRAMPTON, Kenneth. p. 70)
Desde sua época como estudante, Gaudí acha o gótico fascinante, porém imperfeito (ZERBST, Rainer. p. 25). Por isso, ao receber essa influência em seus projetos procurava modificar aquilo que segundo ele abrigava o erro deste estilo, seguindo assim os ensinamentos de Viollet-le-Duc, quando citava que as construções do passado poderiam servir de inspiração, mas nunca deveriam ser copiadas. Como já citado por outro teórico, o artista buscava:
“um gótico que fosse cheio de luz do sol, estruturalmente relacionado com as grandes catedrais catalãs, empregando a cor como os gregos e os mouros faziam, lógico para a Espanha; um gótico meio marítimo, meio continental, avivado por riquezas panteístas” (LEBLOND, Ary. 1910)
Como influência da nova burguesia catalã, Antoni Gaudí teve como seu patrono Eusebi Güell Bacigalupi, um industrial que tinha enriquecido no meio têxtil, o qual se configurava como uma figura típica da nova Catalunha. Güell empreendia muitas viagens à Inglaterra e teve bastante contato com as novas correntes de pensadores, além da influência que sofreu do movimento separatista catalão e as ideias de reforma social. Muito se diz que foi através dessa ligação entre os dois que Gaudí conheceu melhor as obras de William Morris e John Ruskin e do movimento de Art Nouveau que se desenvolvia nos países europeus. Nesse convívio entrou em contato com os primórdios da nova cultura que se espalhava, a qual defendia, nos diversos ramos das artes, o retorno à Idade Média e a libertação das rígidas regras clássicas. Era a proposta de uma Arte Nova.
“Neste primeiro período, Gaudí esforçou-se para encontrar um estilo próprio com uma vontade nacionalista. A essa vontade, que depois chegou a se transformar numa identidade pessoal, devemos acrescentar o fato de ter assistido a uma série de tertúlias intelectuais na casa daquele que foi seu grande mecenas e protetor, don Eusebi Güell Bacigalupi. Nesse ambiente, eram frequentes as conversas sobre as teorias de Ruskin, os dramas musicais de Wagner e os escritos de Viollet-le-Duc, leitura assídua de Gaudí já em seus anos de estudante da Escola de Arquitetura de Barcelona.” (GÜELL, Xavier. 1994)
Portanto, foi a partir dessas diversas influências que Gaudí desenvolve um estilo pessoal, unindo referências e, ao mesmo tempo, afastando-se de qualquer tipo de imitação. É situado neste contexto da Art Noveau e do movimento separatista catalão que o arquiteto, ao buscar uma identidade regional, acaba criando uma arte própria.
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