quarta-feira, 1 de junho de 2011

Contexto histórico espanhol

Figura 1: Antoni Gaudí
Antoni Gaudí nasceu em 25 de junho de 1852, em Reus, na costa da Catalunha. Em 1869 muda-se para Barcelona para efetuar seus estudos em arquitetura. Neste momento, a cidade passava por um expressivo desenvolvimento econômico, sendo a única cidade espanhola na qual havia um princípio de industrialização. Esta situação favoreceu a formação de uma burguesia dinâmica ligada ao comércio e à indústria, a qual se opunha à antiga burguesia tradicional que centralizava o poder na Espanha. Com a crescente prosperidade econômica, essa nova classe ganha maior destaque e influência, enquanto Barcelona se transforma no centro político e intelectual da Catalunha, tornando-se pólo econômico e cultural.

Figura 2: Mapa da Espanha subdividido em suas comunidades autônomas

Entretanto, simultaneamente a este período, a Espanha vivia sob um regime monárquico, o qual procurava unificar todo o seu território sob um ideal centralizador. Madrid seria o centro de todas as decisões, impondo sua soberania sobre Barcelona. Na busca de uma nação unificada, foi proibido, por exemplo, o uso da língua catalã. Diante deste quadro, surgem várias correntes em busca de uma afirmação do poder regional, dando origem ao “catalanismo”. Havia vários pontos de reivindicação, como o federalismo progressista e o protecionismo industrial da região, porém Gaudí se insere no revivalismo cultural. Nasce assim a chamada Renaixença catalã, movimento artístico das artes e dos ofícios que se combinou com o movimento político nacionalista, notoriamente anti-castelhanista, buscando a autonomia catalã e o reconhecimento de sua língua, o catalão.
Forma-se assim um contexto de oposição da nova burguesia catalã ao centralismo castelhano e o revival catalão nos diversos ramos das produções culturais. É a existência de uma nova classe com um profundo sentimento de identidade própria e uma constante inquietação por diferenciar-se do resto do Estado espanhol (GÜELL, 1994). Portanto, é no encontro propício de diversos fatores econômicos, sociais, políticos e culturais que nasce o Modernismo na Catalunha (termo pelo qual foi denominado o movimento Art Nouveau na Espanha) no qual se destaca Antoni Gaudí.

Influências

Para além do movimento separatista catalão, Gaudí sofre neste momento influências de diversos teóricos e correntes da época. De acordo com Kenneth Frampton, em História Crítica da Arquitetura Moderna (2000), sua obra parece ter-se originado de dois impulsos antitéticos: “o desejo de reviver a arquitetura indígena e a compulsão a criar formas totalmente novas de expressão”. Cita-se dentre as personalidades que mais influenciaram o seu trabalho Viollet-le-Duc, John Ruskin e Ricardo Wagner.
É no final do século XIX e início do século XX que também se insere no contexto europeu o movimento Art Noveau, nascido na Bélgica e difundido posteriormente para a França e demais países. Esse movimento é fruto de uma nova burguesia industrial e das novas tecnologias, buscando romper com os princípios da arquitetura clássica e propondo o uso de novas formas e materiais. É a defesa de uma arte em sintonia com o seu tempo. Deste modo, em vários países da Europa os teóricos e artistas buscam a formação de uma identidade própria, formas que criassem uma identidade nacional e que deixassem de ser simples repetições dos modelos antigos. A situação não foi diferente na Catalunha, principalmente em um período em que se vivia um revival cultural, buscando a afirmação da soberania catalã na região. Gaudí recebe então influência de vários estudos e concepções de pensadores da época, os quais, juntamente com o movimento catalão, o ajudaram na sua formação cultural, que inicialmente relacionava-se com a busca de uma arte regional característica catalã e que mais tarde tornou-se algo extremamente particular e próprio.

“Ao longo desse período podemos reconhecer uma forte luta interior para superar-se e encontrar um estilo próprio e pessoal. Tanto o ensinamento de Viollet-le-Duc, como esforço de livre interpretação dos distintos estilos, quanto certa atitude romântica no estudo na arquitetura gótica e, em grande parte, de sua lógica estrutural, bem como o estudo da natureza como fonte inesgotável de inspiração, são as fontes que dotarão Gaudí, no momento histórico da passagem do século, da liberdade suficiente para ir além dos estilos históricos e entender a modernidade que é preciso encontrar nessa nova atitude.” (GÜELL, Xavier. 1994)

Na busca de uma identidade regional, Gaudí desde cedo buscou conhecimento na história de sua região, apresentando ao longo de sua carreira um resgate das tradições locais. Pode-se perceber a exemplo disso características da cultura dos mouros em suas criações, povo que dominou, principalmente, o sul da Espanha entre os anos de 711 d.C. e 1492, deixando profundas marcas na arquitetura e nas artes do país. Desta forma, “o artista recria em suas obras a essência de seu estilo que, embora gótico em seu princípio estrutural, era mediterrânico, para não dizer islâmico, em boa parte de sua inspiração” (FRAMPTON, Kenneth. p. 70)
Desde sua época como estudante, Gaudí acha o gótico fascinante, porém imperfeito (ZERBST, Rainer. p. 25). Por isso, ao receber essa influência em seus projetos procurava modificar aquilo que segundo ele abrigava o erro deste estilo, seguindo assim os ensinamentos de Viollet-le-Duc, quando citava que as construções do passado poderiam servir de inspiração, mas nunca deveriam ser copiadas. Como já citado por outro teórico, o artista buscava:

“um gótico que fosse cheio de luz do sol, estruturalmente relacionado com as grandes catedrais catalãs, empregando a cor como os gregos e os mouros faziam, lógico para a Espanha; um gótico meio marítimo, meio continental, avivado por riquezas panteístas” (LEBLOND, Ary. 1910)

Como influência da nova burguesia catalã, Antoni Gaudí teve como seu patrono Eusebi Güell Bacigalupi, um industrial que tinha enriquecido no meio têxtil, o qual se configurava como uma figura típica da nova Catalunha. Güell empreendia muitas viagens à Inglaterra e teve bastante contato com as novas correntes de pensadores, além da influência que sofreu do movimento separatista catalão e as ideias de reforma social. Muito se diz que foi através dessa ligação entre os dois que Gaudí conheceu melhor as obras de William Morris e John Ruskin e do movimento de Art Nouveau que se desenvolvia nos países europeus. Nesse convívio entrou em contato com os primórdios da nova cultura que se espalhava, a qual defendia, nos diversos ramos das artes, o retorno à Idade Média e a libertação das rígidas regras clássicas. Era a proposta de uma Arte Nova.

“Neste primeiro período, Gaudí esforçou-se para encontrar um estilo próprio com uma vontade nacionalista. A essa vontade, que depois chegou a se transformar numa identidade pessoal, devemos acrescentar o fato de ter assistido a uma série de tertúlias intelectuais na casa daquele que foi seu grande mecenas e protetor, don Eusebi Güell Bacigalupi. Nesse ambiente, eram frequentes as conversas sobre as teorias de Ruskin, os dramas musicais de Wagner e os escritos de Viollet-le-Duc, leitura assídua de Gaudí já em seus anos de estudante da Escola de Arquitetura de Barcelona.” (GÜELL, Xavier. 1994)

Portanto, foi a partir dessas diversas influências que Gaudí desenvolve um estilo pessoal, unindo referências e, ao mesmo tempo, afastando-se de qualquer tipo de imitação. É situado neste contexto da Art Noveau e do movimento separatista catalão que o arquiteto, ao buscar uma identidade regional, acaba criando uma arte própria.

A particularidade da obra

Mesmo com todas as influências sofridas e com a busca inicial de uma identidade regional catalã, longe de todos os estereótipos e de regras tidas como inquestionáveis, Gaudí desenvolve ao longo de sua carreira um estilo inigualável e característico de si próprio. Através da análise de suas obras percebe-se nos detalhes cada uma de suas referências e, no todo, uma arquitetura única do artista.
Pode-se dizer que ele brinca com a liberdade criando formas como uma escultura e utilizando-se desde os novos materiais, como o ferro, até o artesanato tradicional com a cerâmica e os mosaicos. É o conceito da arte total, sendo a obra uma unidade de todas as artes. Percebe-se nesse momento a influência de Ruskin e Wagner, os quais possuíam um ditame parecido de que “o arquiteto que não fosse escultor ou pintor não era ‘senão um moldureiro em grande escala’” (Frampton, Kenneth. p. 71). Ele realiza deste modo uma arquitetura plenamente visual, com o auxílio fundamental da cor, sendo os demais materiais apenas suporte. “A verdadeira estrutura, é a estrutura da imagem.” (ARGAN, Giulio C. 1984)
A partir de sua originalidade de criação, Gaudí percebe que a linguagem arquitetônica moderna tem possiblidades poéticas bem maiores quando não está restrita ao âmbito do “útil” e das ideologias sociais. A criação extravasa esse sentido e, neste momento, ele encontra a problemática da Art Nouveau que abrange o significado de analisável e útil, menosprezando então as vantagens funcionais.

Como a técnica está a serviço da fantasia e a fantasia não tem limites, os problemas técnicos que se apresentam a Gaudí são mais difíceis do que os inerentes a uma técnica a serviço da razão: Gaudí não só está ao corrente de todas as novidades técnicas de sua época, como também pretende superá-las, justamente demonstrando que a técnica é de importância apenas relativa.” (ARGAN, Giulio C. 1984)

Figura 3: Escadaria do Parque Güell

De acordo com o teórico Giulio C. Argan, o Parque Güell (1900 – 1914) destaca-se como um produto do conceito da arte total, de dependências de todas elas como uma unidade. É a integração recíproca entre as formas artísticas e as formas naturais. Com a fachada em pedra moldada de forma rudimentar, Gaudí mistura elementos clássicos, mediterrâneos e seu estilo mudéjar. A monumental escada exterior remete a imagem dos grandes castelos do passado, bem como o réptil representado que faz uma alusão aos gigantescos dragões.

Figura 4: Detalhe do réptil representado na escadaria

Há também uma colunata em estilo dórico compondo várias filas, mas sem perder a identidade do artista. Gaudí brinca com essa herança da Antiguidade nas colunas exteriores, sendo ligeiramente inclinadas e alargadas mais a baixo, além de uma composição mais marcada.

Figura 5: Colunas inclinadas em estilo dórico do Parque Güell

O conhecido banco serpenteante contínuo que segue uma forma natural e orgânica, materializado em pedra, porém que não perde o estilo magnífico sendo composto por um mosaico multicolor a partir de pedaços de azulejo e de vidro, bem como todo o parque.

Figura 6: Detalhe dos bancos serpenteados

Além do resgate de tradições clássicas, a cor ocre da pedra ergue-se como um templo grego. A partir dessas análises, percebem-se com nitidez diversas influências confluindo para um estilo próprio arquitetônico, distinto de qualquer outra produção anterior ou do mesmo período. Nikolaus Pevsner chega aproximar essa produção aos ideais buscados por Picasso, estando mais alinhada a esse conceito do que aos militantes da Art Nouveau, levando em consideração as cores vibrantes, as formas retorcidas e a ornamentação aleatória.

“No Parque Güell, (...) aproximou-se de tal forma da natureza que as construções pareciam ser uma segunda natureza, uma recriação artística de formas naturais e de princípios arquitetônicos.” (ZERBST, Rainer. p. 178)

Figura 7: Fachada da Casa Vicens

Como outra obra de destaque para análise pode-se citar a Casa Vicens (1883 - 1888), que traz uma forte influência mourisca em sua composição. Essa casa “atesta a influência de Viollet-le-Duc (...) em que os elementos construtivos do estilo nacional eram dados como decorrentes dos princípios do Racionalismo Estrutural” (FRAMPTON, Kenneth. p. 70). Sua simplicidade construtiva conta com a utilização de pedra em tons ocre, tijolos vermelhos e azulejos coloridos nas fachadas, proporcionando um jogo ornamental com a união da tradição burguesa espanhol e a tradição árabe secular.

Figura 8: Fachada da Casa Vicens mostrando a combinação dos diversos materiais: pedra, azulejo, tijolos avermelhados e ferro

Há um claro resgate da arte muçulmana nesta arquitetura, através dos ornamentos geométricos e composições de azulejos que trazem cores vivas e elementos regionais. Entretanto, Gaudí não imita a arquitetura mourisca, mas utiliza-se dela como inspiração para criar seus próprios ornamentos. As pequenas torres no telhado lembram também o estilo mourisco. Tanto no interior da casa como no portal de entrada percebe-se também a influência da Art Nouveau, com a ornamentação com motivos florais e o ferro batido como folhas de palmeira. Desta forma, há a utilização de um dos novos materiais da época: o ferro, sendo entortado e trabalho em formas naturais e curvas.

Figura 9: Detalhe do portão de ferro retorcido em formato de folhas de palmeira

"A influência mourisca é bem patente. Pequenas torres que fazem lembrar os minaretes das mesquitas foram aplicadas no telhado. Os motivos finos, típicos dos azulejos, dão a impressão dos motivos de filigrana das construções mouriscas. No interior do edifício, repete-se a impressão ornamental das paredes cobertas de azulejos, sem imitar a arquitetura mourisca. Gaudí apenas se deixou inspirar e criou seus próprios ornamentos.” (ZERBST, Rainer. p. 39)

Figura 10: Fachada da Casa Vicens, com destaque para a torre no telhado em estilo mourisco

“A Casa Vicens é uma colagem de estilos bem diferentes. Se quisermos definir o que é típico nesta casa, podemos dizer que se trata de uma ruptura de estilo.” (ZERBST, Rainer. p. 39).

Em Barcelona, a Casa Milà (1906 – 1910), também conhecida como “La Pedrera”, ergue-se como a face ondulante de um penhasco, como uma gigantesca escultura.

Figura 11: Fachada da Casa Milà, também conhecida como "La Pedrera"

A estrutura de aço do edifício é suprimida por um revestimento maciço de pedra, com blocos laboriosamente trabalhados de modo a sugerir a face de uma rocha erodida pelo tempo. Assim como no Parque Güell, a articulação da estrutura foi sacrificada à evocação de uma força primitiva, não sendo explicitamente expressos nem a construção nem seu modo de montagem.” (FRAMPTON, Kenneth. p. 72)

Figura 12: Vista superior do pátio interno da Casa Milà em formato arredondado

No interior da edificação, há a substituição dos antigos pátios retangulares por outros redondo que se alargam verticalmente, resultando em uma excelente iluminação natural, uma inovação que passa a ser adotada posteriormente na arquitetura de Barcelona. Nesta obra percebe-se também o menosprezo de Gaudí por vantagens funcionais que tanto desserviu à Art Nouveau, sendo aplicado esse conceito à planta da Casa Milà, como, por exemplo, com paredes curvas às quais não se pode encostar um móvel.

Figura 13: Planta da Casa Milà

De acordo com o teórico Pevsner, em Origens da arquitetura moderna e do design, levando em consideração os aspectos apresentados, torna-se fácil enquadrar este artista no movimento Arte Nova da época. Porém, é necessário lembrar que suas obras não seguem fielmente aos princípios defendidos, sendo consideradas originalidades dentro das molduras da época. Ele pode ser considerado um artista em sintonia com o seu tempo que, em muitos momentos, se antecipa a seus contemporâneos em soluções arquitetônicas, porém que não deixa de lado as raízes de seu povo. Reflete o Mediterrâneo como uma confluência de culturas diversas e Barcelona como centro de referência. Sua obra é característica da região da Catalunha, porém inigualável a de qualquer outro contemporâneo que tenha buscado essa identidade regional.

“Ainda nesse individualismo extremado, Gaudí foi parte da Art Nouveau, pois este movimento era acima de tudo, e antes de mais nada, a explosão do individualismo” (PEVSNER, Nikolaus. p. 113)

Referências bibliográficas

ARGAN, Giulio Carlo. El Arte Moderno 1770-1970. Valencia: Fernando Torres Editor, 1984.
FRAMPTON, Kenneth. História Crítica da Arquitetura Moderna. Tradução de Jefferson Luiz Camargo. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
GÜELL, Xavier. Antoni Gaudí. Tradução de Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 1994. 219 p.
http://www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq000/esp149.asp (acesso em: 31/05/11)
http://www.dpp.pt/Workshops/Olhares_Economia_Espanhola/Espanha_Autonomias.pdf (acesso em: 31/05/11)
PEVSNER, Nikolaus. Origens da arquitetura moderna e do design. Tradução de Luiz Raul Machado. São Paulo: Martins Fontes, 2001. 224 p. Tradução de: The sources of modern architecture and design.
ZERBST, Rainer. Antoni Gaudí. Espanha: Köln, 1993.

Fonte de fotos:
1. http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Antoni_Gaudi_1878.jpg

2. http://kadjalilas.wordpress.com/
3. http://arqhistoriando.blogspot.com/2010/10/art-noveau.html
4. http://eporfalaremmoda.wordpress.com/2010/03/11/e-por-falar-em-cores/
5. http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Park_G%C3%BCell_-_Viaducto.jpg
6. http://cafeelivro.blogs.sapo.pt/2011/02/19/
7. http://www.bluffton.edu/~sullivanm/spain/barcelona/gaudivicens/whole.jpg
8. http://www.bluffton.edu/~sullivanm/spain/barcelona/gaudivicens/facdet.jpg
9. http://www.casavicens.es/
10. http://gaudimon.an3.es/modernist-building.php?b=Casa%20Vicens
11. http://home.att.ne.jp/sigma/satoh/pictures/spain/barcelona.html
12. http://www.free-photos.biz/photographs/architecture/buildings/119597_casa_mila-panoramic.php
13. http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/03.029/739

Obs.: acessos em 31/05/11